Tuesday, October 10, 2017

Vertentes trabalhadas

-Teatro e música neozelandês, o Haka ( Samuel Mairon e Naiara Lira)
-Teatro Anchietano e teatro e antropologia (Heliel Scena)
-Teatro e música nas religiões afro brasileiras (Milca Orrico)
-Teatro e música caribenhos (Amanda Borges)

Monday, October 2, 2017

Transcrição: Entrevista com Yahina Kakatiza Kamaiurá, indígena Kamaiurá.

Kakatiza: Meu nome é Yahina Kakatiza Kamaiurá, conhecido como Kakatiza, eu sou da tribo Kamaiurá, do alto Xingu, Mato Grosso, eu estou morando aqui no Gama há dois anos, saí da minha aldeia quando tinha 16 anos , hoje estou com 28 anos,



Heliel: Primeiro quero agradecer pela entrevista, sua disponibilidade, te abordei num momento estranho, mas obrigado mesmo. Então, você começa apresentando sua origem étnica, seu nome, o processo de transição, de onde vocês com bastante tempo na cidade, mas aqui no Gama tem dois anos q eu tô morando.


Heliel: E o que impulsionou você ter saído de lá, foram os conflitos de terra… etc., ou não tem relação?


Kakatiza: No meu caso, saí quando eu tinha 16 anos porquê minha mãe pegou uma criança, ela adotou uma criança que tem problema de saúde, um tipo de anemia raro, ele foi obrigado a sair da aldeia para fazer tratamento médico, hoje em dia ele faz tratamento aqui em Brasília no Hospital da Criança, ele faz transfusão de sangue a cada 20 dias, 25, dependendo do... estado de saúde dele, até hoje ele tá fazendo estes tratamentos.
Por isso a gente saiu. Aí eu comecei a estudar, fiz ensino médio, terminei, aí depois fui trabalhando e comecei a ir levando essa rotina da cidade,  na aldeia não tem esse negócio “você trabalha 5 horas da manhã, volta à… tarde”, não. Na aldeia você trabalho num horário que você decidiu, você trabalha 5 horas da manhã, volta à tarde, mas no outro dia se não quiser ir trabalhar, não vai, mas você tem que trabalhar bem duro mesmo  pra sustentar a família.
Então eu aprendi bastante com 16 anos, normalmente na tribo já é considerado com uma pessoa que já conhece bastante da cultura porquê desde criança a gente aprende as coisas da aldeia, como caçar, pescar, coisas básicas da...  


Heliel: Subsistência.


Kakatiza: Sim, da aldeia.


Heliel: Então, desde o momento que você se mudou pra cidade, o que você e sua família tem feito para preservar as tradições musicais, de dança, etc.?


Kakatiza: Então, a gente preserva mais a língua, a gente fala nossa língua no dia a dia. Tem a alimentação também, é… peixe com beiju, que é quase todo dia, mas como na cidade é caro, a gente tenta comer quase todo dia, é bem complicado isso. Na aldeia é todo dia mesmo: peixe com beiju. A língua a gente preserva bastante,  aqui todo mundo fala a língua na nossa casa e a gente vai sempre na aldeia também para visitar a comunidade e as famílias também, porque uma parte da família, no caso, a maioria,  mora lá, a família toda mora lá e só minha mãe que mora na cidade por causa do tratamento do meu irmão.


Heliel: Tem algumas cerimônias de dança e de música na sua tribo? quais são as mais… as datas comemorativas, quais são as mais importantes?  


Kakatiza: As festas mais importantes da comunidade, são a festa do pequi, essa época de outubro e novembro tem pequi, estão o pessoal faz festa para comemorar a colheita do pequi e eles guardam também para uma cerimônia importante que é Kuarup, é uma homenagem aos mortos, a cada ano tem esta festa para homenagear as pessoas que morreram e a família que faz essa festa. Normalmente são quatro ou cinco troncos kuarup, kuarup são troncos que a gente pega e pinta como se fosse a pessoa mesmo, coloca as pinturas e tudo,coloca cocá, colar, pinta o corpo de um tronco, aí é homenageando os mortos,é uma cerimônia muito importante. Essa época de pequi, eles fazem muita festa, as mulheres também fazem muita festa, depois da comemoração da colheita tem a festa das crianças furarem a orelha.
São as principais.Tem a festa das mulheres, que é YAMURIKUMÃ*, as mulheres dançam, lutam… fora isso, tem festa da flauta, que eles tocam flauta o mês inteiro, todo mundo participa, de crianças até os mais velhos… acho que tem outra também.


Heliel: Essas são as mais importante, no caso.


Kakatiza: O Kuarup praticamente todo ano tem, na aldeia, porque a família morre e tem homenagem.


Heliel: O Kuarup reúne várias tribos, né?


Kakatiza: Porquê no Xingu existe mais de 14,16… povos indígenas e tem as línguas,né. É divido entre baixo, médio e alto Xingu, no alto Xingu é que praticam essa cerimônia que é Kuarup, no alto Xingu são mais ou menos 8 tribos indígenas convidadas para essa cerimônia, tem pescaria, eles vão para bem longe da tribo pescar algumas toneladas de peixe para alimentar todos os convidados, passam uma semana fora e quando chegam os convidados, dormem no acampamento fora do círculo da aldeia. No dia seguinte tem as lutas, tem o dono da festa que luta contra cada aldeia, desde às 6 e meia e 7 da manhã...até as 2, 3 da tarde, e tem peixe para todos os convidados.


Heliel: Agora naquele ponto sobre a pintura dos trocos no ritual Kuarup, você podia falar um pouco sobre os motivos da sua pintura corporal?


Kakatiza: Sim, na nossa cultura, tradição, existem vários tipos de pintura, mais festivas, para luto e pra guerra. Antigamente existia muita guerra. Para Kuarup existem três tipos de pintura, de luto própria do tronco kuarup, pintura para mulheres, com traços iguais ou que mudam completamente, no kuarup são mais quadrados. São esses…


Heliel: Eu queria perguntar se tem alguma música que você gosta mais, se vocês tocam flauta nas celebrações, etc.


Kakatiza: Bom, existem três tipos de flauta na comunidade, eu não sei tocar todas. Tem a flauta Iacuri* que as mulheres não podem ver, elas só podem ouvir a música. Tem a flauta sagrada, que só os homens podem tocar e tem a flauta Oruá* que é tocada juntamente com o Kuarup. Em cada casa há também uma taquara, uma flauta executada por cinco pessoas, pai, filho, irmão mais velho, tio e avô, não necessariamente nessa ordem mas sempre cinco pessoas. Existem também flautas semelhantes à flauta sagrada e que os homens tocam também, a diferença é que a flauta sagrada é feita de madeira mesmo, mais resistente, e a outra menor é feita de um material mais frágil.


Heliel: Bom, você faz curso técnico de enfermagem, correto? Você e sua família, Qual a relação entre os saberes indígenas e a cura e o potencial da dança e da música nos processos de cura aplicados na comunidade.


Kakatiza: Bom, quando alguém fica doente a família vai chamar o pajé, que é como se fosse o médico de vocês. Ele faz os procedimentos dele e, se não der certo ele chama de raizeiro, é o cara que entende tudo de raiz. Se mesmo assim a pessoa não melhorar então eles fazem um ritual formado só por pajés para trazer a cura e a alma de volta. Normalmente melhora. Pra vocês pode ser meio complicado entender isso porque lá eles dizem que a alma está perdida em algum lugar, a festa acontece no mato , somente os pajés podem ver e eles trazer a alma da pessoa de volta e geralmente ela melhora. Eles têm uma música deles pra trazer a alma de volta. Então os pajés e raizeiros são pessoas assim bem importantes, eles são bem valorizados e a gente dá bastante coisa pra eles. Então é assim, a gente faz curso de enfermagem, eu, minha esposa e dois primos e a gente faz isso pra adquirir conhecimento do outro né, o conhecimento do mundo do branco então a gente optou por essa área pra aprender outra forma de cuidar das pessoas. O médico pra nós é como um pajé e a gente não pode desvalorizar ele, a gente tem outro tipo de conhecimento e esse conhecimento e completa, então a gente tem que trabalhar junto.


Heliel: E esse processo tem a ver com retornar com novos conhecimentos para comunidade?


Kakatiza: Sim, hoje em dia tem agentes de saúde para a comunidade indígena, eles são indígenas formados para essa finalidade e enfrentam diferenças culturais, se um branco vier da cidade ficar com os índios ele não vai se acostumar por que é muito diferente então esses dois conhecimentos se juntam quando esse jovens são preparados pra isso lá.


Heliel: Essa é a última pergunta, e como conversamos antes, você podia comentar um pouco sobre o processo de infanticídio de quando uma criança nasce com imperfeições físicas? Se isso é acompanhado por algum ritual, ou não.


Kakatiza: É, isso é bem difícil de falar, hoje que a gente se afastou é mais fácil ver que o indígena tem sua cultura e que eles não matam por que eles querem ver o mal ou porque eles são cruéis. É porque ele ama a criança, gosta muito e não quer que ela sofra pois caso nasça com deficiência não tem como cuidar na aldeia. Não tinham este tipo de conhecimento, gêmeos e filhos de mãe solteira eram mortos por que as informações demoram para chegar, a cidade mais próxima fica a horas de distância. Hoje essas práticas já acabaram e, embora tenham ainda certa frequência, são muito menos comuns.


Heliel: Você pode comentar o motivo pelo qual você fez essa pintura corporal, se tem alguma relação com o evento que você falou antes.


Kakatiza: Bom, essa pintura eu fiz, é a pintura para um evento festivo, e fui a um evento sobre fissura labial onde um médico faz tratamento para as crianças. Minha sobrinha foi atendida, antigamente as crianças eram sacrificadas. Esse médico é muito bom porque ele se importa com as crianças e as vezes até arca com outros tratamentos que as famílias não podem pagar. Um indígena não anda sozinho, então os profissionais da saúde esperam por toda a família, são mais custos.   A questão da rejeição o médico entende e se preocupa. Atenderam familiares do cacique que já retornaram para a aldeia que seriam mortas. Hoje em dia se percebe um grande avanço e se aceita.  A gente procura ajudar...


Heliel: Eu queria agradecer muito, por favor. É…


Kakatiza: Kakatiza…


Heliel: Kakatiza, isso, e se você quiser dar mais um recado ou falar outra coisa, qualquer consideração pessoal…


Kakatiza: Gostaria só de agradecer pela oportunidade da gente conversar sobre esse assunto e sobre a minha vida, quando cheguei aqui, não falava português, aprendi com dificuldade, depois aprendi e levei adiante e obrigado, qualquer coisa estou aqui se precisar de ajuda nessa questão.




  A Missão de Pesquisas Folclóricas de 1938 - Pernambuco    A missão enveredou-se pela descrição do praiá Pankararu, bem como pela colet...